Nem toda anestesia que tomo faz com que a dor passe. O ódio faz parte das pessoas que convivem comigo e o medo nos faz correr da própria sombra, ou de pessoas estranhas, de repente, como em um flash ele surge e corremos. Mas as vezes pego a foto que tenho de quando era mais novo, a 12 anos atrás. Lembro da minha infancia, de ter 6 anos e todos ao redor estavam sempre sorrindo. Isso passou. O tempo passou. Na verdade, acho que nem foi tanto tempo assim. Creio que a vida não é muito longa. Outro dia eu tinha 8 anos, hoje eu tenho 16. E minha vida rodou, rodou, rodou e nunca parou. Como uma bola de neve rolando pela mais alta montanha congelada, todas as coisas ruins pioravam quando meu mundo rodava. E junto eu girei, girei, girei, até que pirei. Me perdi. Em uma noite não sabia mais voltar para casa. Não por não saber o caminho, mas por não saber onde estava. Poderia estar junto dos meus pais, que me magoaram e me fizeram infeliz. Ou poderia estar com os meus novos amigos que me anestesiaram e me deram uma saida tranquila. Mas isso foi só o começo. Depois de me decidir onde seria meu lar, tudo piorou ainda mais. Eu não tinha dinheiro, nem roupas. Eu não tinha saúde, amor, ou qualquer outra coisa. Até hoje o que tenho são cicatrizes, marcas, manchas, poucas trocas de roupa velha, uma foto e droga por todos os cantos. Tudo mudou. A vida foi longa demais, intensa demais. A vida foi curta. Ela durou muito em muito pouco tempo. Ela fugiu do controle. Lembro quando tudo isso começou a uns 2 anos. Me lembro de escutar o não dos meus pais. Lembro de escutar o não dos meus antigos amigos. Lembro de escutar o não da sociedade que não me aceitava. Mas também lembro quem me acolheu. Lembro das camas por onde passei em troca de dinheiro. Lembro das pessoas que me levaram para o apartamento onde moro. Lembro de tudo que se passou desde aquele dia. Lembro da minha vida. Mas passa. Agora passa como um flash. A anestesia que me faz lembrar sem querer morrer, não faz tanto efeito como antes. Meus pulsos estão com muitas cicatrizes. Meu corpo já foi esmurrado muitas vezes. Cansei. Canse de sofrer. Cansei de me drogar. Cansei de anestesias. Cansei. Simplesmente cansei. E é por estar tão cansado que talvez minhas asas não funcionem e eu morra esmagado no chão depois da minha ultima anestesia. Adeus mundo humano, vou voar livre de tudo e todos.